|
|
|
|
| |
| |
| |
|
SUTIL
EM SEU PODER CRÍTICO
|
|
Pedro
Garcia
|
| |
 |
| |
Verônica vive no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro das
crianças que jogam bola ao som de tiroteios. No Rio de
Janeiro do tráfico e do crime organizado. Verônica vive
no Brasil. No Brasil da professora de escola pública com
vinte anos de carreira que mal consegue sustentar a si
mesma. No Brasil das filas em hospitais. No Brasil dos
policiais corrompidos. No Brasil da falta de confiança
nas instituições.
O cinema conquistou espaços pontuais na cultura popular
nacional escancarando nossas feridas - ao menos a parte
mais, digamos, séria dele, o que exclui um Se Eu Fosse
Você (2005). Temas como pobreza, seca, violência e
corrupção já foram explorados à exaustão, e em boa parte
das vezes, de maneira agressiva e com traços de "filme-denúncia"
exageradamente marcados.
O primeiro mérito de Verônica (2008) é manter a
proposta de narrar uma impressionante história sem deslizar
para a delação gratuita. Ainda assim, há o conjunto de
indícios que afloram sutil e inteligentemente por trás
da trama de ação, e dizem muito sobre a realidade brasileira.
Verônica é obra munida de significado social, mas
que se garantiria sem o próprio.
A primeira aventura de Maurício Farias distante das comédias
- seus trabalhos anteriores como diretor foram A Grande
Família (2006) e O Coronel e o Lobisomem (2005)
- descreve o envolvimento de uma professora com o universo
do crime, o que começa com um de seus alunos abandonado
na escola, passa pela descoberta de que os pais foram
assassinados por traficantes, até a perseguição do garoto
pelos delinquentes e a obstinada proteção por parte da
docente.
Em quantia considerável, o sucesso aqui se deve à segurança
de Andréa Beltrão no papel principal, definitivamente
armada contra qualquer um que a associe unicamente a papéis
cômicos. Contida, ela foi capaz de conferir à protagonista
uma identidade marcante. Há de se reconhecer ainda a competência
do pequeno Matheus de Sá, que interpreta em doses certas
e contribui positivamente com a intensidade da cronologia.
O roteiro, co-assinado por Bernardo Guilherme, alia-se
à direção para a manutenção de um ritmo ágil, acelerado
em sequências onde se investe na ação. As experimentações,
no entanto, aparecem com a função de estabelecer conexão
de todo o movimento com o interior da protagonista, como
nos flashbacks fragmentados e no excelente momento
em que Verônica é avisada sobre a morte do casal. O giro
na visão e a granulação da imagem traduzem perfeitamente
um sentimento que é comum à ela e ao espectador.
Em contrapartida, o desacerto da trilha sonora, na qual
grita o amadorismo, claramente fruto de uma necessidade
de acompanhar a cena, mas incapaz de compor um conjunto.
E, por fim, o fraco fechamento, que mergulha fundo demais
no clichê, beira o melodrama desnecessário, e destoa feio
do restante da obra. Antes ficássemos apenas com Verônica
dirigindo na estrada, sem o discurso em off. Felizmente,
tais elementos errôneos não chegam a comprometer a qualidade
da obra.
VERÔNICA (Brasil, 2008)
Direção: Maurício Farias.
Elenco: Andréa Beltrão, Matheus de Sá, Marco Ricca,
Flávio Migliaccio.
Cotação: *** |
| |
|
|
|