|
"Viva Voz" é um filme de pessoa apaixonada por cinema.
Não tenho como dizer se é o melhor ou pior filme que
vi este ano, mas certamente é um dos mais revigorantes.
As escolhas são equivocadas, são de mau gosto e tão
divertidas que se aceita com sorriso no rosto as cenas
ruins tanto quanto as geniais.
O diretor Paulo Morelli transcende seus defeitos de
direção através do entusiasmo, o gozo de fazer um filme.
As atuações são terríveis, as sacadas são de videoclipe,
os diálogos chegam a doer de tão ruins, mas o longa
tem um "não-sei-o-quê". A personagem principal, Duda,
interpretada por Dan Stulbach de forma que pode apenas
ser classificada como genial, é cheia de dúvidas, repetindo
a mesma piada até dar chances às náuseas, mas nunca
cansando. Seus coadjuvantes estão mal, mas de uma maneira
boa. Até o Supla tem uma participação especial memorável,
como o irmão de Duda, Sávio. Paulo Morelli ama seus
personagens tanto quanto o filme. São todos verdadeiros
canalhas que adoramos, porque são tão canalhas, mesmo.
A influência do cinema de caras como Michael Bay,
David Fincher, Guy Ritchie e Quentin Tarantino é inegável.
E, como Tarantino e ao contrário de Fincher, Morelli
adora fazer cinema. É quase possível ver o diretor sorrindo
feliz e pulando quando um plano termina e está tudo
como gosta. É tanta energia, tanta gana, que eu ouso
me repetir até o final. Arrisco dizer que vejo um irmão
no filme "Airbag", de Juanma Bajo Ulloa, produzido em
1997. É uma confusão cinematográfica, mas funciona.
A única coisa ruim que é ruim, mesmo, no filme, são
os policiais interpretados por Paulo Gorgulho e Ernani
Moraes. Os diálogos deles são forçosamente referenciais.
A história para variar não é das mais importantes
e tem tantas reviravoltas que tentar resumir seria perda
de tempo. Não é um cinema para quem gosta de histórias,
mas as gags do filme dão um senso de estrutura,
de que algo mais que puras jogadas de estilo estão acontecendo
e isso pode servir como história a quem deseja uma.
O básico é: não sei o que vi nesse filme. É como uma
coisa de "beleza exótica". Não há como definir porque,
apenas que nos atrai.
VIVA VOZ (2003)
Direção: Paulo Morelli.
Elenco: Dan Stulbach, Viviane Pasmanter, Graziella
Moretto, Betty Gofman.
COTAÇÃO: SEM COTAÇÃO
|