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Sempre reclamaram que o cinema brasileiro não aproveitava
a sua história para fazer bom cinema. Desperdiçou-se
uma época - a de 1970 - com pornochanchadas e alguma
coisa para ser lembrada, mas sem muito entusiasmo. Porém
aos poucos, apesar de deslizes que ainda ocorrem, temos
duas décadas que valem mais a pena do que qualquer filme
sobre um herói do beisebol americano (sabem do que falo,
afinal Hollywood transforma qualquer coisa em épico,
vide aquele filme do cavalo Seabiscuit, uma verdadeira
bomba). Bem, deixemos de delongas e vamos a Zuzu
Angel, de Sérgio Rezende.
Se escrevi há pouco que Gwyneth Paltrow arrasa em A
Prova, Patrícia Pillar faz muito mais em Zuzu
Angel. Famosa estilista nascida em Minas Gerais,
mas que fez sucesso no Rio de Janeiro dos anos 1970,
ela bateu de cara com a ditadura militar, depois de
ter seu filho morto pela repressão. O jovem, Stuart,
fruto de seu casamento com um norte-americano, é interpretado
por Daniel Oliveira (Cazuza). Ele se envolve com a guerrilha
urbana e é pego pelos milicos. Após ser severamente
torturado, o seu corpo foi jogado no mar e nunca encontrado.
Zuzu, no início, assim como a maior parte da população
brasileira, não acreditava que estava ocorrendo uma
revolução no país e nem mesmo uma brutal ditadura, até
perder o filho e a nora Sônia (a bela Leandra Leal).
Ela passa anos protestando e tentando esclarecer o que
ocorreu com o seu filho. Isso lhe provoca a perseguição
da ditadura, que passa a considerar a estilista uma
figura perigosa para o sistema.
A estilista incomodou tanto, que acabou sendo eliminada
pelos militares - e não há nada de maniqueísmo no filme,
apesar de algumas pessoas que forem assistir ao filme
considerarem os militares por demais maus, cínicos,
mentirosos. E não o eram?
O filme tem uma boa reconstituição de época e faz bem
as idas e vindas no tempo, sem deixar o espectador confuso.
Ah, detalhe para Luana Piovani interpretando Elke Maravilha,
uma figura conhecida pelos programas dominicais de Silvio
Santos como jurada e por sua excentricidade. Porém,
Elke é uma figura singular. Nascida na antiga União
Soviética, seus pais fugiram do regime comunista e vieram
parar no Brasil. Com um Q.I. altíssimo, ela fala seis
línguas e até faz uma ponta no filme como uma cantora
alemã num bar.
Zuzu, há pouco, ganhou uma homenagem ao ter o túnel
onde foi assassinada passar a levar o seu nome. Uma
de suas filhas, Hildegard Angel, é hoje colunista do
jornal O Globo. Um filme nota 10.
ZUZU ANGEL (2006)
Direção: Sérgio Rezende.
Elenco: Patrícia Pillar, Daniel Oliveira, Regiane
Alves, Luana Piovani.
Texto originalmente publicado em 04.08.2006 no blog
do autor: http://www.sala-escura.blogspot.com
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